........vinha de braço dado a um senhor com cerca de 75 anos, só o conheci nessa noite mas sabia um pouco da sua história. tinha três filhos:
o mais novo era muito giro, um pouco ignóbil mas atraía-me - nunca o tinha visto antes.
o do meio tendia para o intelectual pedante, mas o mistério à sua volta despertava-me curiosidade - nunca o tinha visto antes.
o mais velho era o simpático, bonacheirão - já o conhecia do café onde vou diariamente, nunca lhe falei, mas já o topei a olhar de soslaio para os livros que costumo ter na mesa.
.a companhia daquele senhor acalmava-me, lembro-me de achar que estava a abusar ao me encostar ao seu ombro e pegar-lhe no braço com as duas mãos, mas ele não se queixava... seguíamos devagar e alegres pelo passeio até que passamos por uma carrinha azul escura 4x4 de caixa aberta, muito parecida à do meu pai.
.na caixa da carrinha estava um cão imobilizado, semi-deitado, grande, branco, com um olhar muito doce apesar de envolvido numa luta com um polvo de dimensões consideráveis. parámos estupefactos para a cena, sem saber o que fazer. o polvo parecia estar em vantagem ao envolver o pescoço do adversário com os tentáculos. numa reviravolta o cão tenta comer o polvo. abocanha-o pela cabeça e fá-lo descer devagar pela garganta.
lembrei-me imediatamente da iguaria japonesa
San Nak Ji e do perigo de se morrer sufocado, mas mal gritei um
NÃO angustiado, os tentáculos do animal que ainda se encontravam no exterior formaram uma espécie de estrela e cobriram todo o focinho ao bicho, que morreu em poucos segundos.
a última imagem que tenho é da cabeça inerte do cão a tombar contra as paredes da carrinha, os olhos fechados e o pelo branco à volta da boca sujo de tinta...
.o polvo, o senhor de 75 anos e respectivos filhos varreram-se ante esta imagem.
.acordei sobressaltada,
com a sensação que uma inocência qualquer tinha morrido.
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